• Jubileu de Diamante

Cristo Rei

Goiânia,22 de novembro de 2016,às 08h40.

Solenidade de Jesus Cristo Rei

 

Irmãos caríssimos: o Ano Jubilar da Misericórdia, iniciado a 8 de dezembro de 2015, termina hoje, solenidade deNosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, último domingo do ano litúrgico.

Nele experimentamos um tempo extraordinário de graça e de misericórdia. Nesta celebração eucarística, queremos entoar o nosso cântico de louvor e a nossa ação de graças, pelos dons que o nosso bom Deus nos concedeu.

Confiemos a vida da Igreja, a humanidade inteira e o universo imenso a Cristo Rei, para que derrame sobre todos a Sua misericórdia, como o orvalho da manhã, para podermos construir um mundo mais justo e mais fraterno.

E, porque a misericórdia de Deus não tem fim, peçamos ao Senhor, que os próximos anos sejam permeados de misericórdia, para irmos ao encontro de todas as pessoas, levando-lhes sempre a bondade e a ternura de Deus econduzindo-as às fontes da alegria!

Jesus Cristo é a meta final da História. É, pois, com razão que encerramos o Ano Litúrgico aclamando-o “Rei dos Reis e Senhor dos Senhores”,o Senhor e Rei de todo o universo.

E como é que este Rei nos aparece na leitura do Evangelho de hoje?

Aquele letreiro afixado na Cruz está a proclamá-lo Rei. Aos olhos do vulgo, porém, Ele não passa de um rei de comédia… Feito objeto de troça e sarcasmo, é mesmo desafiado a mostrar o seu poder salvador: “Salvou os outros, que se salve a si”; “Se és rei, salva-te a ti e desce da Cruz!”

E Jesus mostra o seu poder salvador, não descendo do trono da Cruz, mas levando ao fim, por meio da Cruz, a obra da salvação da Humanidade!

Pregado na Cruz, oculta a sua majestade e quer manifestar em que consiste a sua realeza: o perdãopara os que o insultam e maltratam; a garantia do paraíso ao ladrão arrependido; o abrir-nos de uma vez as portas do Reino dos Céus até então fechadas pelo pecado. Não é reduzindo a nada os seus inimigos que Ele estabelece o seu reinado, mas provocando o amor das suas criaturas com o amor que lhes mostra “até ao fim”;assim reconcilia com Deus todas as coisas, “realizando a paz pelo sangue da sua Cruz, com todas as criaturas na terra e nos céus” (2ª leitura).

O seu reino é “um reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz” (prefácio do dia).

Jesus é Rei porque é Deus feito homem: “nele reside toda a plenitude”, isto é, nele “habita corporalmente toda a plenitude da natureza divina” (2ª leitura e Cl 2, 9), por isso “em tudo Ele tem a primazia, o primeiro lugar” (2ª leitura). Com efeito, “por Ele e para Ele tudo foi criado” e “Ele é a Cabeça do Corpo, isto é,  da Igreja”(Cl 1,18).

Mas, assim como acontecia no Calvário, o drama da rejeição do amor deste Rei de Paz e de Misericórdia continua atual. Confrontamo-nos com uma sociedade que teima em viver de costas para Deus e que tenta impor um projeto de vida ao avesso do maravilhoso plano de amor e de paz inscrito no coração humano e na própria natureza das coisas.

São João Paulo II advertia que se está difundindouma mentalidade inspirada no laicismo e esta ideologia leva gradualmente à restrição da liberdade religiosa até promover um desprezo ou ignorância do religioso, relegando a fé para a esfera do privado e opondo-se à sua expressão pública, o que nada tem a ver com a justa laicidade do Estado. Ora “uma sociedade em que Deus é absolutamente ausente autodestrói-se; vimo-lo nos grandes regimes totalitários do século passado” (J. Ratzinger).

Em face dessa situação, que vem já do séc. XVIII, Pio XI instituiu esta festa de Cristo Rei em 1925 e mais adiante promoveu a Ação Católica. O grito de São Paulo, “é preciso que Ele reine” (1Cor 15,25), é a aspiração de todo o discípulo de Cristo, que quer opor aos desígnios dos homens da parábola de Lc 19,14 – “não queremos que Ele reine” – um ideal apostólico, que veio a expressar-se no lema litúrgico: “Regnare Christum volumus!” (Queremos que Cristo reine!). E foi assim que Jesus nos ensinou a rezar na oração do Pai-nosso: “Venha a nós o vosso Reino”.

Perante o reinado de Cristo, a nossa atitude não pode ser a de ficarmos passivos, limitando-nos a receber os bens do Reino. A vocação cristã implica a missão de ser apóstolo deste Reino.O Concílio Vaticano II, ao falar dos leigos, proclama que, “por própria vocação, compete aos leigos procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as de acordo com Deus” (LG 31).

Para isso, antes de mais, temos de fazer com que Cristo reine plenamente em nós próprios. Que Ele reine na nossa inteligência, para que ela procure conhecer cada vez melhor as verdades da fé, aderindo interiormente a elas; que Cristo reine na nossa vontade, para que ela se identifique com o querer de Deus e o seu projeto de salvação; que Ele reine no nosso coração, para que ele não se apegue a nada contrário ao amor de Deus. Só então poderemos dar um testemunho válido e contribuir eficazmente para o reinado de Cristo em nossa família, em nosso ambiente de trabalho, enfim, na sociedade em que vivemos.

O ponto de partida de todo o apostolado eficaz é a procura incansável da identificação com Cristo; esta é a meta que São João Paulo II propôs para o novo milênio: “Em primeiro lugar, não hesito em dizer que o horizonte para que deve tender todo o caminho pastoral é a santidade… É preciso, pois, redescobrir, em todo o seu valor programático, o cap V da LG do Concílio, intitulado ‘vocação universal à santidade’” (NMI 30). A propósito, é bem significativa a expressão de São Josemaria Escrivá: “Um segredo, um segredo em voz alta: estas crises mundiais são crises de santos. Deus quer um punhado de homens ‘seus’ em cada atividade humana. Depois... ‘Pax Christi in regno Christi’ – a paz de Cristo no reino de Cristo” (Caminho - nº 301).

O ladrão arrependido pedia apenas que Jesus se lembrasse dele no seu Reino e Jesus introduziu-o no Reino dos Céus!

Trabalhemos, irmãos e irmãs, para que Cristo reine de verdade, primeiramente em todo o nosso ser, em nossa alma e em nosso corpo; e, depois, em todos os ambientes em que nos movemos, em nosso lar, em nossa família e em nosso trabalho santificado, feito com perfeição, por amor, como uma oferta digna de Deus, para a sua glória.

Dom Washington Cruz

Arcebispo Metropolitano de Goiânia


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