Desde muito cedo, ainda na primeira infância, a oração ganha lugar privilegiado na vida do cristão. Tarefa importante que deve ser observada e reparada pelos pais, conforme o Catecismo da Igreja Católica deixa claro e nos exorta: “A família cristã é o primeiro lugar da educação para a oração. Fundada sobre o sacramento do matrimônio, ela é ‘a Igreja doméstica’, onde os filhos de Deus aprendem a orar ‘como Igreja’ e a perseverar na oração. Para as crianças, particularmente, a oração familiar cotidiana é o primeiro testemunho da memória viva da Igreja reavivada pacientemente pelo Espírito Santo” (CIC, 2685).
Neste período de férias, em que muitas das atividades pastorais da Igreja dão uma pausa, somos convidados a dedicar uma parte do tempo à oração. É um modo de “recarregar” as baterias, ouvir o que o Senhor tem a nos dizer, e pedir a ele um ano proveitoso e abençoado. Segundo Dom Moacir Silva Arantes, bispo auxiliar da Arquidiocese de Goiânia, a oração pode ser também um impulso à ação pastoral. “A oração pode nos ajudar a moldar, criar, fortalecer pensamentos e convicções, e, a partir desses, direcionar nossas orações, em vista do projeto de Deus”.
O bispo salienta que não rezar antes das nossas atividades, sobretudo as pastorais, é falho e contra os ensinamentos da Igreja, já que, dessa forma, podemos estar colocando nossos desejos acima dos planos de Deus. “Uma pessoa que não reza na sua atividade pastoral se torna um ativista de si mesmo, de seus desejos, de suas convicções e de seus planos, pois quem não ora não consulta a Deus”. Ele ressalta, porém, que a ação não é uma oração. “Ela pode ser fruto e resultado da oração, mas a ação em si mesma é um segundo momento. Por isso olho com estranheza quem diz que sua ação é uma oração”.
Como rezar
Não há modo específico de rezar, pois essa atitude – explica Dom Moacir – é uma conversa, um diálogo com Deus. “Conversar e dialogar aprendemos conversando, como uma criança que vai aprendendo palavras, gestos, expressões, a partir do relacionamento com os outros. Assim nós também aprendemos a oração”. Em diversos momentos de sua vida, Jesus ensinou e orientou os discípulos sobre a importância da oração. “Ele orava sempre e durante noites inteiras. Ele mandava os discípulos orarem sempre: ‘Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem’ (Mt 5,44). ‘Tudo o que, na oração, pedirdes com fé, vós o recebereis’ (Mt 21,22). ‘Vigiai e orai, para não cairdes em tentação’ (Mt 26,41). ‘Jesus contou aos discípulos uma parábola, para mostrar-lhes a necessidade de orar sempre, sem nunca desistir (Lc 18,1)’”, ilustra o bispo.
Pai-Nosso
Mesmo sabendo que orar é conversar com Deus, os apóstolos pediram a Jesus que ele os ensinasse. E o Senhor o fez com a oração do Pai-Nosso, que é, conforme explica nosso bispo, uma oração composta:
– Do reconhecimento sobre aquele a quem oramos, da identidade revelada por Jesus (Pai)
– Da sua transcendência e do louvor que ele merece
– Composta de petições que nos ajudam a construir um relacionamento com ele, que nos fortalece em nossa identidade de filhos, que assumem seu projeto, que buscam seu auxílio em suas necessidades, e se comprometem a atender também as necessidades dos irmãos
O Pai-Nosso é um pequeno programa de vida com Deus e com os irmãos. Por isso não é uma oração para ser repetida levianamente, quando não se pretende viver e assumir o que nela está contido.
Aproximação de Deus
Para aqueles que queiram se aprofundar sobre a oração, Dom Moacir explica ainda que há vários tipos que podem ser pensadas a partir da reflexão sobre as formas de proximidade que podemos construir com Deus. Por exemplo: ao nos aproximar pelo impulso do coração que busca proximidade, teremos uma Oração Silenciosa, apenas de presença diante do outro; se nos aproximamos na compreensão de uma realidade, utilizando a capacidade mental e reflexiva, teremos uma Oração Meditativa; se nos aproximamos utilizando palavras recitadas em voz alta (nossas ou palavras de outras pessoas), teremos uma Oração Vocal; se nos aproximamos apenas nos colocando diante do mistério de Deus e contemplando, nos deixando tomar por ele e sua presença amorosa, teremos uma Oração Contemplativa. Há ainda a Oração Litúrgica, que é a oração da Igreja, com a qual cada fiel se une a ela com uma só voz diante de Deus; e a Oração Devocional, que parte do carinho de uma pessoa ou grupo por Deus, que os faz comunicar-se com ele de uma forma muito particular.
“Há diversos tipos de oração, pois Deus toca cada um de uma forma e cada pessoa reage a seu modo. Mas um elemento fundamental, em qualquer oração, deve ser a presença da Palavra de Deus, como ponto de partida”
Atualmente, a Igreja tem recomendado muito a Leitura Orante da Bíblia (Lectio Divina), que contém alguns passos muito concretos que assimilam tipos de oração já comentados acima por Dom Moacir: leitura da Bíblia, meditação, oração espontânea e contemplação. Semanalmente, o Jornal Encontro Semanal traz, na página 8, a Leitura Orante do domingo seguinte, como forma de preparação para a missa dominical.
Fúlvio Costa