Quantos de nós já participou da Santa Missa e já comentou ou ouviu comentários do tipo “Nossa, a homilia hoje foi pra mim!”, “o padre falou de uma forma tão clara que eu entendi perfeitamente as leituras”, “até à homilia de hoje eu não havia tido essa compreensão”, ou, até mesmo, “nossa, senti tanto sono na homilia…”. E são diversas as impressões sobre esse momento da celebração! Mas será que sabemos o verdadeiro valor e objetivo da homilia durante a missa? Como saber se foi boa e qual a postura diante das palavras do padre? Para entender um pouco mais sobre o assunto, conversamos com o padre Antônio Donizeth do Nascimento, coordenador de Liturgia e Arte Sacra da Arquidiocese de Goiânia.
Homilia, sermão, prática. Afinal, o que isso significa?
Comecemos pela origem do vocábulo homilia. Essa palavra teve várias compreensões ao longo de milênios e em vários ambientes e culturas. Na cultura grega, homilia quer dizer conversa ou um discurso para designar o sermão. Outra expressão usada é “prática”, pois, ao escutar e estudar a Palavra, o pregador a aplica na prática. Sermão, prática, meditação, todos esses termos se complementam e nos ajudam a entender a função da homilia. A homilia é, portanto, um momento de escuta e diálogo com Deus, a partir das Sagradas Escrituras. “É um elemento indispensável para nutrir a vida cristã”, segundo o documento Instrução Geral do Missal Romano (cf. IGMR, n. 65).
Qual a sua função?
A homilia conduz as pessoas a uma relação com Deus a partir da escuta. Escutar, do latim “audire”, na homilia, tem o significado “ob-audire”, ouvir e obedecer, compreender e obedecer a Palavra de Deus. É uma traição à tradição homilética não ter a Palavra de Deus como fonte do discurso. O papel da homilia é ajudar as pessoas a compreender a vontade de Deus. “Convém que a homilia seja uma explicação de algum aspecto das leituras da Sagrada Escritura ou de outro texto do Ordinário ou do Próprio da missa do dia, levando em conta tanto o mistério celebrado, como as necessidades particulares dos ouvintes”, de acordo com a IGMR (cf. n. 65). Ou seja, a homilia, predominantemente, tem como base os textos sagrados. Portanto, durante a explicação, não é para pregar ideias, lições de moral, acusações, desabafar ou apresentar certos ou errados para a comunidade.
A Palavra de Deus atinge a todos
Ao contrário do que se possa pensar, uma boa homilia vem de um pregador que primeiramente vive a experiência do diálogo e proximidade com o Senhor. Uma homilia é fecunda para a assembleia tanto quanto foi para quem a preparou. Na fase de preparação, o pregador deixa-se ser tocado, transformado, educado, corrigido pela Palavra numa aliança com o Senhor, e isso lhe permite ser canal facilitador para que os fiéis também vivam essa experiência. O pregador, que normalmente conhece a realidade em que está inserido e os aspectos inerentes aos seres humanos, ajuda o povo a confrontar o que é ouvido com a realidade em que vive, principalmente em relação à espiritualidade.
O pregador é aquele que se faz ponte
Tendo rezado o texto, o pregador saberá aplicar a palavra e conduzir as pessoas a uma experiência profunda de diálogo com Deus. Um bom homiliasta sabe observar a assembleia e perceber suas reações. No mundo de hoje, onde o conhecimento bíblico em geral é tão pequeno e o tempo para reflexão tão escasso, cabe aos pregadores especial zelo para transmitir a novidade do texto sagrado a partir da experiência de oração.
O povo responde, ativamente, a Deus que fala
Durante a homilia, a postura dos fiéis deve ser de escuta. Eles devem se abrir a essa experiência, demostrando uma adesão à Palavra de Deus, permitindo-se serem tocados para a correção e mudança. A escuta não deve ser passiva, mas, sim, atenta e envolvida. Com a ajuda do “facilitador” (o pregador), a pessoa conseguirá aplicar a Palavra na própria vida. Por isso é fundamental aceitar a ação do Espírito Santo na obra de santificação na vida de cada um.
“A homilia é, portanto, um momento de escuta e diálogo com Deus, a partir das Sagradas Escrituras”
Partes da Missa
A missa é dividida em quatro ações que se complementam. Para entender a ciência homilética, é preciso compreender onde ela se insere na Celebração Eucarística, conforme a seguir.
Rito de Acolhida
Na primeira ação, a palavra-chave é a acolhida. Nos ritos iniciais, que são os ritos da acolhida, Deus nos acolhe e nós nos acolhemos mutualmente e acolhemos o chamado de Deus. Essa é a primeira ação ritual da Eucaristia.
Rito da Palavra
Na segunda ação, acontece o diálogo. É Deus que fala na primeira leitura, no salmo, na segunda leitura e no Evangelho, no caso da liturgia dominical. Logo depois vem a homilia, em que somos chamados à conversão e revisão da vida. Na celebração eucarística, a homilia é que liga a segunda parte da missa à terceira parte. Depois de Deus falar, nós, no tempo de silêncio, acolhemos a Sua palavra.
Rito Sacramental
A terceira ação é uma ação de graças. Nesta parte da missa, acontece o ponto alto da celebração, em que Cristo vive sua paixão e se entrega, por nossa salvação, ao Pai. Somos chamados a fazer parte de sua Ceia, em profunda comunhão com Ele. Nesta parte da liturgia, a IGMR ressalta que “a oração eucarística é o centro e ápice de toda celebração, é prece de ação de graças e santificação” (cf. n. 54).
Ritos Finais
A quarta ação é o envio em missão. O rito de encerramento da missa consta fundamentalmente dos seguintes elementos: “saudação e bênção do sacerdote que, em certos dias e ocasiões, é enriquecida e expressa pela oração sobre o povo, ou por outra forma mais solene; despedida do povo pelo sacerdote ou pelo diácono, para que cada qual retorne às suas boas obras, louvando e bendizendo a Deus” (cf. IGMR, n. 90).
Curiosidades
1 – Havia uma prática de não haver homilia nas missas da semana. No entanto, por ela ser indispensável e por sua importância, os papas Bento XVI e Francisco passaram a incentivar a homilia também nas missas durante a semana, afim de que as pessoas que delas participassem tivessem o direito de encontrar na Igreja um apoio e uma colaboração que as fizessem compreender e aplicar a Palavra em suas vidas.
2 – Só a partir do Concílio Vaticano II é que se compreende o papel específico da homilia, na estrutura do sermão, dentro da ação litúrgica, especialmente da celebração Eucarística. Até então, ela não estava necessariamente vinculada a uma ação. No entanto, em todos os sacramentos se prevê uma homilia, uma meditação, uma aplicação completa da Palavra na vida.
Talita Salgado
Jornalista e Assessora de Comunicação