No dia 6 de agosto de 1965, os Beatles lançaram ao mundo um grito inesperadamente honesto: Help! (em português: Ajuda!). John Lennon confessava, mais tarde, que aquela canção era um verdadeiro desabafo, quase uma prece involuntária no meio de uma fama avassaladora. Curiosamente, hoje — quando a “vida pública” parece ser tanto um palco universal como uma pequena janela aberta nas redes sociais — esse mesmo grito continua a ecoar. Help! poderia ser a banda sonora de tantos que procuram sentido, estabilidade emocional, vínculos verdadeiros ou simplesmente um lugar para respirar. E, embora nenhum de nós seja o John Lennon, todos carregamos dentro de nós um pedido silencioso de ajuda.
Talvez por isso comecemos este mês conscientes da nossa própria fome e sede espiritual. Vivemos a um ritmo tão vertiginoso que rezar parece, por vezes, uma maratona. E, no entanto, precisamos profundamente dela. Às vezes apoiamo-nos em orações antigas que acompanharam gerações, participamos na liturgia que alimenta o Povo de Deus, difundimos devoções que nos comovem… Tudo isso ajuda, mas nada substitui a centralidade do encontro direto com o Evangelho, com a Palavra viva de Jesus. A oração com a Palavra de Deus fortalece a nossa fé, dá-nos critérios para compreender a vida e cria entre nós uma comunhão que não nasce de ideias abstratas, mas de um testemunho revelado que partilhamos. E, como Deus sempre faz, esse encontro empurra-nos para lá de nós mesmos: para o mundo real, especialmente para aqueles que mais precisam de nós.
E é aqui que a história dá uma reviravolta curiosa. Apenas três meses depois do lançamento da música Help!, o Concílio Vaticano II promulgava a Constituição Dei Verbum, a 18 de novembro de 1965. E nela encontramos, quase como resposta teológica à canção, uma certeza luminosa: a Sagrada Escritura contém a resposta de Deus à sede humana mais profunda. A Palavra não é uma mensagem perdida no tempo; é água viva que continua a descer sobre a terra do nosso coração, como descrevem os profetas. Que a Palavra nos tenha sido revelada definitivamente em Jesus não significa que já a tenhamos acolhido plenamente. Por isso continuamos a conviver com o medo, a injustiça e a morte. A água já caiu do céu, mas ainda está a penetrar a terra. E, contudo, de cada vez que a acolhemos, experimentamos a surpresa de Deus: no rosto concreto de Jesus, o Pai mostra a sua obra e confia-nos o seu Espírito para renovar o mundo. A Palavra está viva, está em ação — e nós fazemos parte deste processo de acolhimento.
É neste contexto que chega a intenção do Papa para janeiro de 2026: “Rezemos para que a oração com a Palavra de Deus seja alimento nas nossas vidas e fonte de esperança nas nossas comunidades, ajudando-nos a construir uma Igreja mais fraterna e missionária”.
Mais do que acrescentar uma nova tarefa à nossa agenda mensal, esta intenção convida-nos a caminhar com a Palavra como companheira indispensável da nossa oração. A Igreja sempre insistiu que os cristãos devem ter amplo acesso às Escrituras — não apenas para um conhecimento intelectual, mas para que a Palavra seja acolhida na vida, tecida na comunhão eclesial e fonte de discernimento quotidiano. Porque a verdade cristã não se impõe como fórmula acabada: renova-se todos os dias no silêncio da oração com as Escrituras.
Isto pede de nós uma atitude simples e renovada: escutar a Deus para viver melhor. Que não passe um dia sem recebermos uma Palavra. Que essa Palavra se torne gesto. Porque a Palavra rezada ilumina, transforma, aquece o coração e, com suavidade, impulsiona-nos para a missão.
Para viver esta intenção, propomos cinco caminhos concretos — simples, exequíveis e profundamente fecundos:
- Ter contato diário com a Palavra: lê cada dia um breve trecho do Evangelho e guarda uma frase para repetir ao longo do dia;
- Dedicar um dia por semana à oração com o Evangelho: ler, meditar, rezar e contemplar um texto bíblico sem pressas;
- Deixar que a Palavra acompanhe o trabalho ou o estudo: escolher uma frase que ilumine as decisões a tomar;
- Partilhar a Palavra em família ou em comunidade: reservar um momento para uma frase ou reflexão bíblica;
- Transformar a Palavra em gestos concretos: que a oração se faça vida: consolar, escutar e servir.
Que a Palavra seja, neste mês, a água que desce e encontra espaço para fecundar a nossa terra — e que o nosso pequeno grito de ajuda (help!) encontre sempre resposta no Deus que fala e permanece.
Miguel Melo, SJ
Vice-diretor Internacional Rede Mundial de Oração do Papa