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Semana Santa: Coração do Ano Litúrgico

Semana Santa: Coração do Ano Litúrgico

Volta à fonte primordial que é o Cristo

Na véspera do início da Semana Santa, o coordenador arquidiocesano de Liturgia e Arte Sacra, padre Antônio Donizeth do Nascimento, concedeu entrevista ao Encontro Semanal. O conteúdo apresentado aqui, antecipamos, é muito rico e trata-se de um importante subsídio para nos orientar sobre o sentido e a dimensão da Semana Santa em nossa caminhada cristã até a Páscoa – ápice da fé.

Na entrevista, tivemos o difícil desafio de apresentar um tema denso, mas de forma sucinta, isto é, comunicar profundamente a densidade da fé cristã. Padre Antônio explica que a Semana Santa tem início com o pôr do sol de sábado, dia 24, e prossegue até o pôr do sol de domingo, 1º de abril, Páscoa do Senhor. Ele também enfatiza que é indispensável aos cristãos, durante a Semana Santa, viver o seu sentido cristológico: “Viver o mistério de Cristo. Renovar com ele uma relação de aliança, voltar a ele a fonte primordial”.

O sacerdote faz também a distinção entre a liturgia da Igreja na Semana Santa e a encenação do caminho ao calvário, realizada em muitas paróquias, e relata como surgiram essas encenações. Padre Antônio deixa claro, ainda, que o fundamental e mais importante é viver liturgicamente a Semana Santa como mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo. “Na encenação as pessoas assistem, participam emocionadas, mas recebendo uma interpretação do artista. Na liturgia não. Na liturgia é o próprio Cristo que vive o mistério; você participa do mistério. É muito diferente”.

Padre, o que é a Semana Santa e quando ela começa?

A Semana Santa começa com o pôr do sol de sábado. A partir de sábado à noite (24) já é domingo Dia do Senhor. E ela se encerra com o pôr do sol de domingo, neste ano dia 1º de abril. Esse é o tempo que a gente diz “Semana Santa”.

Para viver bem a Semana Santa, é necessário ter feito um caminhada mais próxima a Deus na Quaresma?

Na verdade, a função da Quaresma é uma caminhada rumo à Pascoa. Essa é a sua finalidade. Não tem nenhum sentido a Quaresma fora da perspectiva pascal. Absolutamente nenhum, senão mero exercício humano de procurar emagrecer e controlar os apetites, os pensamentos, os desejos. Mas do ponto de vista da fé, o que justifica a Quaresma é ser tempo de preparação para celebrar o mistério pascal.

Por que chamamos a Semana Santa de “Semana das semanas”?

A gente também usa uma outra expressão que é “o coração do ano litúrgico é a Semana Santa”. Se você entende o ano litúrgico como um corpo, nós podemos considerar que a Semana Santa é o coração, porque, podemos dizer que, na linguagem litúrgica, tudo caminha para lá, tudo encontra lá o seu sentido último em Cristo, na Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, e tudo deriva daquele mistério celebrado na Semana Santa; tudo deriva dela.

O que é indispensável para os cristãos durante a Semana Santa?

Viver o mistério de Cristo. Viver. Mais do que saber, mais do que regras e normas, costumes, tradições e repetições de ritos, é viver o mistério de Cristo. Isso que é o indispensável. Renovar com ele uma relação de aliança, voltar a ele a fonte primordial. A causa da vida nova que nós recebemos é ele. A Semana Santa é, por excelência, o encontro de cada cristão com a sua própria fonte, a fonte na qual se diz no salmo de Jerusalém: “De Jerusalém todo homem nasceu”. Nós podemos dizer Padre Antônio Donizeth do Nascimentoda Semana Santa: de Cristo e da fonte que é Cristo todos nascemos.

Antigamente, a Semana das Dores era mais falada. O que é Semana das Dores e quando de fato ela começa e termina?

A Semana das Dores, do mesmo modo, é a semana do quinto domingo da Quaresma até sábado à tarde da véspera de Domingo de Ramos. A questão é que a Semana Santa é genuinamente uma semana cristológica. A Semana das Dores é antes da Semana Santa. A gente pode viver os atos de piedade, devoção a Nossa Senhora, ao sofrimento de Maria, mas isso não é a centralidade do mistério da Semana Santa, a dor de Nossa Senhora. A centralidade da Semana Santa é a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo; a centralidade é Cristo. Na Semana das Dores, se meditava e se rezava o mistério da dor de Nossa Senhora, das dores de Maria. Era uma semana piedosa e bonita dedicada a Nossa Senhora, para que não enchesse a Semana Santa com atos de devoção, de extravagâncias de devoção, dolorosa. Mas a centralidade da Semana Santa não é a dor de Nossa Senhora, mas, sim, a Paixão e Morte de Cristo, que também venceu a dor de Nossa Senhora e a dor da humanidade inteira.

Qual o sentido da Semana Santa para a vivência cristã do povo de Deus durante o resto do ano litúrgico?

O sentido mais importante da Semana Santa é que é um tempo para ser vivido na Igreja. É a Páscoa anual. Todo domingo celebramos a Páscoa de Cristo, a Páscoa Semanal. Na Semana Santa se celebra como Igreja, no mundo inteiro, um ato de parar tudo e voltar tudo e todos, como Igreja, à fonte primordial, que é Cristo. Santo Agostinho medita o Evangelho de João que relata sobre o soldado que traspassa o lado de Cristo; vendo que Cristo estava morto, o soldado não lhe quebrou as pernas, mas traspassou-lhe o lado e, ao tirar a lança, verteu sangue e água. O santo usa uma expressão que, na Semana Santa, nós vamos à fonte, que é o lado de Cristo traspassado. Nós vamos beijar a cruz, tocar a cruz, tocar a chaga do lado de Cristo traspassado, e dizer: “aqui eu nasci, aqui é o lugar, aqui é a minha fonte”. É mais do que água benta, é o próprio Cristo a fonte.

Qual a distinção entre a liturgia da Igreja na Semana Santa e a encenação do caminho ao calvário, realizada por muitas paróquias?

Há dois documentos, da Congregação para o Culto Divino, que se chamam Carta circular sobre a preparação e celebração das festas pascais e Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia.

Essas duas referências dão uma normativa muito curiosa e ao mesmo tempo corrigem a Igreja com os seguintes elementos: as dramatizações e cultos da piedade surgiram, em sua maioria, para preencher o vazio de conteúdo dos cristãos leigos sobre o mistério de Cristo. Isso, principalmente, em muitas localidades onde não havia padres, nas periferias. As pessoas começaram a perceber a grandeza da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo e assim passaram a valorizar essas encenações.

Particularmente, aqui no Brasil, isso tomou uma proporção muito grande quando começaram a fazer as Via-Sacras temáticas a partir da Campanha da Fraternidade. No entanto, essas encenações começaram a ter patrocínio de muitos missionários estrangeiros. Só que, como esses missionários foram embora, envelheceram, mudaram-se, esses grupos passaram a ter vínculos com as Secretarias de Cultura dos Municípios, com os políticos, e então as encenações foram sendo financiadas pelo poder público. Além disso, esses grupos de encenação tomaram uma autonomia e passaram a fazer uma interpretação a partir da compreensão deles, e não uma interpretação bíblica, teológica e eclesial da fé; uma interpretação própria, que não é necessariamente a interpretação razoável dos fatos e dos textos sagrados que relatam uma Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

É preciso alguma aproximação e esforço da Igreja para corrigir alguns elementos que não são muitos saudáveis nessas encenações. Na maioria das vezes, elas são muito longas e demoradas, exaustivas. Quando terminam, as pessoas saem delas dizendo “nossa, foi bonito, chorei, me emocionei”. Mas, na encenação, Cristo já ressuscita na Sexta-feira da Paixão. E aí no Sábado Santo e no Domingo de Páscoa o cristão nem vai à Igreja e nem reza, ou seja, nem celebra o ministério da Ressurreição, o mistério da vida nova, que brota. Celebrar é diferente de encenar. Na encenação você assiste e se emociona. Mas pela celebração você participa do mistério do qual se refere. É muito diferente. Embora a encenação tenha elementos importantes, culturais, artísticos, transmite a fé, transmite a história bíblica, mas nela você acaba recebendo uma interpretação do artista. Na Liturgia não. Na Liturgia é o próprio Cristo que vive o mistério; você participa do mistério.

Quem assiste à encenação à noite suspende a participação litúrgica?

Jamais. Esse talvez seja um dos desvios mais graves e que precisa de uma aproximação muito grande. Em paróquias por onde passei, o que mais me assustava era ver que os jovens faziam a encenação com a maior dedicação do mundo, mas na Sexta-feira da Paixão eles estavam exaustos; no Sábado Santo sumiam, e no Domingo de Páscoa nem apareciam na Igreja. Era uma meninada que crescia sem uma verdadeira instrução na fé.

Sem experimentar Cristo ressuscitado você não vai a lugar nenhum. Sem o encontro com Cristo ressuscitado, a morte dele é a repetição das estatísticas de tantas mortes dos jornais, da televisão e dos acontecimentos da história; é repetir as encenações do cotidiano. A Liturgia não possibilita somente encenar, ver, assistir ou ficar sabendo, mas participar dos sofrimentos de Cristo e da vida nova que brota da sua ressurreição. Essa distinção é fundamental, e nenhuma encenação substituirá a celebração litúrgica, na qual o cristão participa da vida nova que Cristo traz.

Como se insere a procissão do encontro dentro da Semana Santa?

A procissão do encontro é uma maneira zelosa, uma orientação da Igreja inserida na quarta-feira, antes do Tríduo Pascal, para que este seja o mais cristológico possível. Não deve ser um ato de piedade e devoção a Nossa Senhora, ou um momento para rezar mil Ave Marias, para ficar adorando o Santíssimo com as escalas de louvor a noite inteira. Não é para isso. A procissão do encontro é contemplar o mistério da paixão e do sofrimento de Nossa

Senhora, da dor dela vendo e convivendo com o Filho no caminho do calvário, na Via Crucis. É uma maneira zelosa de meditar os mistérios de Nossa Senhora e o seu sofrimento antes do Tríduo sacro, para quando nele entrar, não ter nada que tire o foco central: a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, da qual Maria também participou.

É tradição o povo ir à Missa na quinta, morrer com Jesus na sexta, mas não ressuscitar no Sábado Santo. Qual a importância da missa da Vigília Pascal?

A distinção, na verdade, é até mais ampla. A liturgia, que começa com o pôr o sol da quinta-feira, ou seja, a celebração da Ceia do Senhor, do lava-pés, ela se encerra com a Vigília Pascal. É um culto só, que começa na quinta-feira e termina com a Vigília Pascal. Há uma unidade indivisível na celebração da Paixão, na quinta; da Morte, na sexta; e da Ressurreição, no sábado. É uma liturgia só. Não são três liturgias. É uma ação litúrgica com uma unidade indivisível, embora feita em momentos diferentes, mas é a mesma liturgia. É a mesma ação de culto. A pessoa nunca participará dessa unidade se ela for somente a uma. Não tem como participar da quinta-feira e dizer que já foi no resto. Existe uma unidade indivisível: quinta-feira, Paixão; sexta-feira, Morte; sábado, Ressurreição.

 

 

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