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Quaresma

Quaresma

  Estamos em plena Quaresma. Muitos fiéis já intensificaram a vida de oração, as práticas penitenciais e a caridade. Há

 

Estamos em plena Quaresma. Muitos fiéis já intensificaram a vida de oração, as práticas penitenciais e a caridade. Há até aqueles que se sentem mo­tivados a fazer jejum neste tempo, mostrando que ele possui uma força especial no imaginário das pessoas. Isso se deve certamente às grandes penitências antigamente praticadas e a alguns costumes da piedade po­pular. Mas qual é mesmo o sentido espiritual desse período que se es­tenderá até a Quinta-feira Santa, an­tes da missa da Ceia do Senhor?

 

Uma Preparação

No curso do ano litúrgico, ou seja, da celebração dos mistérios de Cristo, que marcam o tempo humano com a eterna misericórdia do Pai, há um ponto culminante: a celebração solene da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, no Tríduo Santo. É o momento mais importan­te do ano cristão, a partir do qual toda a estrutura espiritual da Igreja se organiza. O Catecismo da Igreja Católica (CIC) recorda-nos o duplo aspecto do Mistério Pascal: “por sua morte Jesus nos liberta do pecado, por sua Ressurreição Ele nos abre as portas de uma vida nova” (CIC, 654). Com a Páscoa, então, celebra­-se o amor “até o fim” (Jo 13,1) de Jesus pela humanidade.

Desse modo, é mais do que neces­sário existir uma adequada prepara­ção para que a Páscoa de Jesus se faça realidade na vida do homem, tanto pela celebração dos sacramentos da iniciação cristã (Batismo, Confirma­ção e Eucaristia) como pela renovação da experiência batismal daqueles que já são cristãos. Uma preparação, con­tudo, não possui um fim em si mes­mo. Recebe todo o seu sentido daqui­lo que acontece depois que termina: a Quaresma existe para a Páscoa.

A ausência do Aleluia e do Gló­ria, cânticos de alegria e de louvor a Deus por seus atos de salvação em favor do Povo, ajudam a dar o cli­ma: falta algo que será mais uma vez encontrado e redescoberto com a ce­lebração do dom total de Cristo no Tríduo Santo. Nesse sentido, é totalmente sem lógica uma prática quaresmal que não tenha seu ponto alto na participação ativa e consciente da Vigília Pascal no Sábado Santo.

 

Repensar o seguimento de Cristo

Por outro lado, a experiência de participação nas celebrações pascais fica esvaziada se não tiver sido pre­cedida por uma intensa preparação quaresmal. As celebrações e práti­cas quaresmais oferecem ao Povo de Deus uma rica catequese bíblica e li­túrgica que pretende levar o batizado a repensar o seu sim pessoal a Jesus Cristo. “Quem é esta Pessoa que me oferta a salvação e me chama a segui­-lo?” “Que lugar ele pretende ter em minha vida?” “Que tipo de atitudes quer que eu tome em relação a Ele e à vida?” Essas são perguntas que visam responder os textos bíblicos e litúrgicos. Impulsionado pelo rito das cinzas e pelo jejum quaresmal, a examinar sua vida à luz da Palavra, o discípulo percebe quão má e vã é a vida sem Cristo, o único que lhe oferece o alimento de vida eterna, a Eucaristia, que será celebrada com renovado ardor na Páscoa.

A graça batismal vem acompa­nhada de um compromisso solene de vida conforme a ressurreição de Cristo (1Pd 3,21). Desse modo, na Quaresma, o cristão é chamado a renovar sua renúncia ao pecado, que impede sua verdadeira liberda­de, ao demônio, inimigo de Deus e autor do pecado, bem como a tudo o que causa desunião com o pró­ximo, o que será feito solenemente no Sábado Santo. O Sacramento da Reconciliação, nesse contexto, além de ser uma condição prévia para a comunhão pascal, propicia um reen­contro com a graça batismal. A co­munhão de amor com o Pai, o Filho e o Espírito Santo e, por eles, com toda a Igreja, é restabelecida pela absolvição sacramental.

 

Renovar o amor fraterno, a pertença eclesial e a decisão evangelizadora

Na Quaresma, deve-se colocar em ação um dos elementos mais centrais da graça batismal: a união do cristão no Corpo da Igreja. O ser­viço desinteressado, origem da es­mola, manifesta, pelos atos, a iden­tidade cristã, mas essa identidade só se manifestará plenamente quando o serviço tornar-se amor mútuo e fraterno, quando for comunhão. Es­tando unido a Cristo, o fiel não con­ta somente com o grupo das pesso­as com quem tem relações afetivas, pois é membro do Povo escolhido para celebrar os louvores de Deus e manifestar ao mundo sua bondade. Desdobramento necessário disso é uma vida harmoniosa com a estru­tura visível da Igreja: com a própria comunidade, paróquia e diocese e com seus legítimos pastores. Se isso não acontece, é porque falta uma conversão mais profunda.

Não se pode jamais esquecer que o maior de todos os serviços é o anúncio jubiloso da Pessoa de Je­sus Cristo. Esse é o primeiro ofício de todo cristão (1Cor 9,16), em união com o múnus profético de Cristo. O papa Francisco tem exortado cada cristão a ser “sujeito ativo de evan­gelização” (Evengelii Gaudium, 120). Quaresma é, portanto, tempo de procurar a melhor ocasião e maneira de mostrar que em Jesus Cristo e em sua Igreja encontra-se o amor verda­deiro, que se doa até o fim e vence todo mal. Uma renovada decisão evangelizadora a partir das relações pessoais, que exigem uma prática sincera da caridade, é o melhor e, talvez, o único modo de sermos co­laboradores de Cristo na construção do Reino de justiça, paz e alegria no Espírito Santo.

As práticas exteriores (jejuns, abstinências, caridade, etc.) são ne­cessárias, pois o homem constrói sua vida a partir dos pequenos atos. Elas só serão válidas, contudo, se encarnarem o objetivo principal da Quaresma. O foco deve ser a conver­são a Cristo, tomando ou retomando a opção por segui-Lo pessoalmente, vivendo como ele viveu, unido aos irmãos na Igreja e anunciando o Evangelho a todos em preparação para a grande graça de renovação espiritual que virá na Vigília Pascal.

 

Diácono Pedro Mendonça Curado Fleury
Em estágio pastoral no Seminário Santa Cruz e na Paróquia Nossa Senhora das Dores

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