Igreja Sinodal missionária: Caminhar com os jovens que estão dentro da Igreja e buscar aqueles que estão fora
A aula inaugural do curso de Teologia da PUC Goiás foi proferida pelo cardeal arcebispo de Brasília e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Sergio da Rocha, na noite do dia 8 de março, no Centro Pastoral Dom Fernando (CPDF). Participaram do evento, além dos alunos do curso, diversas autoridades, entre elas, o arcebispo de Goiânia e grão-chanceler da PUC Goiás, Dom Washington Cruz; os bispos auxiliares Dom Levi Bonatto e Dom Moacir Silva Arantes; o reitor da universidade, prof. Wolmir Amado; o coordenador da Escola de Humanidades da PUC, prof. Romilson Martins Siqueira; o administrador diocesano de Ipameri, padre Orcalino Lopes da Silva.
O tema da aula inaugural foi o Documento Final da XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos – Os jovens, a fé e o discernimento vocacional. Para ilustrar com mais propriedade a apresentação do cardeal, exibimos em tópicos e assuntos os temas discutidos no Sínodo. A apresentação teve duração de 1h05. No Sínodo, que aconteceu em outubro do ano passado, Dom Sergio foi relator geral, escolhido pelo papa Francisco. Ele coordenou, durante o evento, uma equipe de redação formada por pessoas vindas dos cinco continentes. Ao todo, a equipe tinha mais de 20 especialistas. “O texto não é um ponto de chegada e não está concluído. O papa Francisco disse que o documento é um ponto de chegada, mas também um ponto de partida.”
Exortação Apostólica
Durante a apresentação, Dom Sergio comunicou que o papa Francisco está preparando uma Exortação Apostólica sobre o Sínodo dos Bispos dedicado à juventude, que deverá ser lançada em breve. “O papa quer aprofundar muitos temas atuais. Certamente, o texto que o Santo Padre irá nos apresentar irá muito além do que nós já conseguimos no próprio Sínodo, embora ele tenha ficado muito contente com o texto, isso eu posso dizer, pois ele expressou em público. O clima do Sínodo foi muito fraterno, agradável e os 34 jovens presentes ajudaram muito”, afirmou.
Conhecer a juventude
Durante três semanas, o papa presidiu o Sínodo o tempo todo. O Santo Padre pediu que toda a Igreja reconheça a centralidade da juventude na vida da Igreja e da sociedade e todos os cristãos dessem a devida atenção a isso. “Achamos, muitas vezes, que sabemos o sufi ciente sobre a juventude, mas temos muito a aprender e temos necessidade de aprofundar questões que estão aí no coração do universo juvenil e muitas situações ligadas que necessitam de conhecimento, reflexão, aprofundamento. O papa Francisco estimulou o conjunto da Igreja a conhecer de fato a juventude”, sublinhou Dom Sergio, afirmando que o Santo Padre pede cuidado para a Igreja não perceber apenas os “super jovens” e esquecer os oprimidos. Segundo ele, é preciso ter a dimensão total da juventude no mundo.
Métodos utilizados
Foi utilizado o método de olhar a realidade, não só conhecer o que está acontecendo, mas refletir a respeito; iluminados pela palavra de Deus, aprofundar e interpretar a realidade, recorrendo à colaboração das ciências psicológicas, sociais, filosóficas e teológicas. Na primeira parte foi reconhecido o que está acontecendo; na segunda, interpretou-se o fato e não simplesmente julgou-se e na terceira etapa foi proposto o “agir”. O texto bíblico inspirador foi o episódio dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35). Três grandes verbos aparecem no texto: reconhecer, interpretar e acolher. “Na primeira parte, o ver recebeu esse nome porque reconhecemos a presença de Jesus no caminho percorrido pela juventude. ‘Jesus caminhava com eles’ (Lc 24,15). Jesus se coloca no meio dos jovens, caminhando com eles. Na segunda parte, que traz como título “Os olhos deles se abriram”, há a interpretação da realidade, ficando muito claro que os olhos se abrem e o coração se aquece. Já a terceira parte, que é o agir, nós queremos que cada jovem faça a experiência de sair para partilhar, contar aquilo que se passa.”
Ouvir os jovens
O Sínodo começou bem antes do evento acontecer. Foram ouvidos jovens de dentro da Igreja, mas também de fora. Dom Sergio afirmou que isso aconteceu porque a Igreja não tem apenas uma ação pastoral bonita, mas também uma ação missionária. Toda a juventude precisou ser considerada para o Sínodo acontecer. “Atemo-nos a olhar a situação concreta dos jovens, seja ela dependência química ou violência. Fizemos um olhar plural, de forma que foi possível identificar também suas potencialidades, dificuldades, contradições e valores.”
Participação na Igreja
A passagem joanina da multiplicação dos pães (Jo 6,1-15) foi utilizada no documento final para ilustrar que o jovem tem a receber da Igreja, mas também a oferecer à Igreja, da mesma forma que ele tem a oferecer à sociedade. Nessa passagem, um menino contribui para que aquele momento de graça aconteça. Nós temos que reconhecer que os jovens estão na Igreja participando, embora a maioria não esteja, assim como a maioria dos adultos também não está. Às vezes se fala só nos jovens, mas, no conjunto da sociedade, é preciso reconhecer que eles participam até mais que os adultos. Hoje, por exemplo, na catequese, na liturgia, há muitos jovens e é preciso entender que eles não são o amanhã, mas o hoje.
Não ter medo dos jovens
Em vários momentos do Sínodo, os jovens participantes disseram sentir que a Igreja tem medo deles. É preciso não ter medo de se aproximar, de ouvir. Não temer o anúncio do Evangelho. O que a Igreja tem a dizer aos jovens? Se a Igreja não disser, outros vão dizer. Trata-se de uma postura pastoral. Os dados são válidos, mas o que realmente conta para conhecer a juventude é ouvi-la. Durante o Sínodo, os jovens fizeram uma visita pastoral a um bairro da periferia, perigoso, em um sábado à noite. Imaginava-se que não seriam atendidos, que seriam maltratados, que fossem receber muitos nãos, mas, ao contrário, ninguém recusou a palavra, todos se abriram, até mesmo aqueles que estavam fumando pediram para ir junto com os jovens. Qual foi a conclusão? Que não podemos ter medo de ir ao encontro de quem não está com a gente. Receber bem a Igreja já é um grande passo. Jovem evangelizando jovem é uma experiência difícil, mas, se olhamos a realidade, descobrimos que tem gente precisando e querendo a palavra de Deus, o amor da Igreja, e precisamos ter coragem de fazer isso.
Realidade pastoral
Três realidades pastorais aparecem no documento do Sínodo. A primeira tem relação com a distância citada acima, isto é, o medo dos jovens. A segunda é a falta de espaços efetivos para os jovens, pois eles querem atuar e reclamam que a Igreja não os oferece. E por último, mas não menos importante, faltam pessoas preparadas para trabalhar com os jovens. A ideia é que tenha gente que os ajude no discernimento vocacional e também na vida que eles vivem, o que é diferente de assessorá-los. A palavra correta em português seria “acompanhador”.
Mulheres e juventude
Dom Sergio disse que pelo menos dois parágrafos do documento tratam da presença da mulher na Igreja e na sociedade. Constatou-se que há uma presença mais ampla das mulheres, sobretudo quando se trata da pastoral juvenil.
Acolhimento
O cardeal comentou uma fala do papa Francisco sobre a imigração no mundo: “perdemos a capacidade de chorar”. A maioria dos imigrantes são jovens que sofrem e que morrem em busca de uma vida melhor. Não precisa ser de outros países, às vezes de uma cidade vizinha que chega à Igreja e nós não conseguimos acolhê-los. Muitas vezes o apresentamos, dizemos para ele se sentir bem na comunidade e não passa disso. O que acontece depois? Ele deixa a comunidade porque não foi acolhido.
Igreja, espaço seguro
No Sínodo discutiu-se muito que a Igreja deve ser espaço seguro para acolher crianças, adolescentes e jovens. O papa não quer nenhum tipo de abuso e nós não devemos aceitar esse tipo de situação. Quais são as situações? Abuso sexual, de poder, de autoridade. Como Igreja, somos orientados a reconhecer e agir.
Universo digital
Como lembrou Dom Sergio, a juventude está cada vez mais inserida no ambiente digital e no Sínodo esse espaço é reconhecido como graça de Deus, mas alvo de ambiguidade e ambivalência que deveria humanizar. A Igreja reconhece que a internet deve ser um recurso, sobretudo por meio das redes sociais, para construir, que precisa se transformar cada vez mais em espaço de anúncio do Evangelho e de proximidade entre as pessoas.
Ação do Espírito Santo
Em sua exposição, Dom Sergio também afirmou que todos os que trabalham diretamente com a juventude precisam reconhecer que o Espírito Santo está agindo no meio dela. “Deus faz muito mais do que podemos perceber”, disse ele. E quem quer se dedicar aos jovens precisa lembrar que o Espírito já está semeando no meio da juventude.
Discernimento vocacional
No Sínodo, apontou-se que há muita dificuldade na Igreja de se reconhecer e valorizar a vocação comum sem perder de vista as vocações específicas. No evento, insistiu-se que é preciso trabalhar essa dupla dimensão da vocação geral e das vocações específicas. Por isso, é necessária a presença de pessoas preparadas para colaborar no discernimento vocacional.
Dimensões sinodal e missionária
A terceira parte do documento considerou as dimensões sinodal e missionária. Dom Sergio explicou que a sinodalidade é caminhar juntos como Igreja em comunhão. Uma Igreja sinodal não vai deixar os seus jovens de fora, mas vai valorizar a vocação para a unidade. Mas por que entrou a questão da sinodalidade missionária? Porque só acolher os jovens não é sufi ciente, nós precisamos ir ao encontro daqueles que não estão na Igreja, sair em busca missionária. Não basta acolher, caminhar juntos com quem está com a gente, precisamos buscar quem não está conosco, para se realizar a sinodalidade que se expressa por meio da colegialidade dos bispos. A sinodalidade tem um aspecto prático-pastoral que é a perspectiva do agir em conjunto, como enfatizou o cardeal.
Conclusão
Dom Sergio destacou que todos esperavam que a conclusão do documento fosse ser outra, mas três longos tópicos tratam do chamado à santidade aos jovens. “O papa fez questão de fazer essa mobilização e canalização para dizer que o Sínodo é uma Igreja santa e que por esse acontecimento ela quer que os jovens façam a experiência da santidade.