"Fraternidade e superação da violência" é o tema da Campanha da Fraternidade deste ano, aberta nesta quarta-feira de Cinzas (14) , em todo o Brasil. Confira, abaixo, o pronunciamento do arcebispo Dom Washington Cruz, na abertura da CF na Arquidiocese de Goiânia, em solenidade realizada hoje, na Cúria Metropolitana.
Queridas irmãs, queridos irmã
Iniciamos um tempo especial em nossas vidas. A liturgia da Igreja nos conduz para o tempo da quaresma.
O tempo é graça de Deus
Como todos os demais tempos da vida, também esse tempo quaresmal é precioso e não podemos desperdiçá-lo. O tempo é graça generosa de Deus.
Cada segundo que vivemos é único e nunca mais irá se repetir. Não tenho como tomar emprestado de vocês o tempo de suas vidas. Cada um tem o seu próprio tempo e precisa discernir com sabedoria o que vai fazer com cada minuto de sua vida.
Por isso, o tempo quaresmal é uma grande caminhada comunitária de conversão, a ser percorrida como Igreja. Mas cada um de nós precisa dar a sua própria resposta pessoal, dizendo para a sua própria consciência e para Deus sobre como vai dispor e o que vai fazer com esses quarenta dias de sua vida.
A conversão que gera fraternidade
Hoje, entre esperanças e desafios, iniciamos a Campanha da Fraternidade, nesse ano de 2018.
Essa iniciativa da Igreja, no Brasil e na Arquidiocese de Goiânia, não é paralela ou complementar à quaresma. Ela deve estar no centro de nosso itinerário espiritual, de nossa oração, de nossos estudos e pregações, de nossas ações e iniciativas. Isso porque a conversão quaresmal, plena e integral, deve gerar frutos de Fraternidade e de Paz. “Vejam como eles se amam”, dizia-se dos primeiros cristãos, identificados como homens e mulheres que viviam como irmãos por causa de Jesus.
Felizes os que promovem a paz
Fraternidade e superação da violência foi o tema escolhido para a Campanha desse ano. “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8) é o lema escolhido para essa Campanha da Fraternidade.
“Bem aventurados os que promovem a paz” (Mt 5,9), a fim de superar a violência. Essa é a boa notícia de Jesus, para todos os discípulos missionários e para todos os homens e mulheres que se empenham na construção de um mundo mais justo, pacífico, fraterno e solidário. Essa bem-aventurança dos promotores da paz também quer ser vivida pela Arquidiocese de Goiânia, discípula e missionária de Cristo, que se empenha com determinação, coragem e testemunho na superação de todas as formas de violência.
Pedro, guarda a tua espada!
No momento mais dramático e truculento contra Jesus – quando foi encontrado e preso para ser morto na cruz -, Pedro teve uma reação imediata de resistência contra aquela violência. Sacou de sua arma e enfrentou aqueles que os atacavam.
Embora tivesse convivido e aprendido tanto de Jesus, em sua mente e em seu coração ainda estava arraigado o método de responder com violência e com armas a um ato de agressão. “Guarda a tua espada” (Jo 18,11), disse Jesus a Pedro. Esse pedido de Cristo continua a ressoar no dia de hoje.
Espadas que destroem as relações interpessoais
Guarda a tua espada, Pedro! Guarda a tua espada, Goiânia! Guarda a tua espada, Brasil.
Guarda a tua espada que dissemina violência e mentiras pelas redes sociais, que te ilude com falsas seguranças, que te transforma em ameaça a quem te chama de “meu bem”, que provoca medo a quem te chama de “meu pai”, que provoca indignação a quem te chama “meu irmão”.
Espadas que destroem as relações sociais
Guarda a tua espada de egoísmo e arrogância contra os pobres, de racismo sobre os negros, de prepotência sobre os índios, de xenofobia sobre os migrantes, de machismo contra as mulheres, de desprezo sobre os jovens, de indiferença sobre os idosos, de abusos contra crianças e adolescente.
Espadas que destroem a vida
Guarda a tua espada que mata pelo tráfico e pelo consumo de drogas, pelo feto eliminado do útero, pelo veneno jogado na terra, pela destruição da natureza, pelos maus tratos aos animais, pelos conflitos agrários, pela disputa por água, pelo consumo do álcool, pelas mortes e agressões no trânsito, pela degradação dos presídios, pela criminalidade.
Espadas que destroem o bem comum
Guarda a tua espada que mata pela corrupção política e social, pelos corporativismos que destroem o bem comum, pela morosidade na aplicação das leis, pela concentração da riqueza nas mãos de poucos, por aqueles telejornais que dão preferência somente à divulgação do mal, por aqueles programas televisivos de entretenimento que transformam a violência em espetáculo, por aquelas ações religiosas e esportivas de fanatismo e de intolerância.
Não às armas, sim à vida!
Os cidadãos brasileiros não precisam de armas e sim de comida no prato, de escola de qualidade e de casa para morar. Os cristãos de verdade não precisam impor verdades e sim construir pontes de diálogo e caminhos de amor. As famílias não precisam do entulho de contravalores apresentados em algumas telenovelas e sim de apoio e parceria na educação de seus filhos.
“Vós sois todos irmãos”
O caminho quaresmal nos pede essa profunda conversão pessoal, comunitária e social. Vamos guardar a espada que ofende a Deus, agride o irmão e destrói a nós próprios. Vamos rezar, jejuar, pedir perdão, refletir e agir. Vamos promover a superação da violência e construir a paz. Vamos, todos e cada um de nós, segundo a sua condição e os recursos de que dispõe, desenvolver uma ampla, empolgante e penitencial Campanha da Fraternidade, porque em Cristo “somos todos irmãos”.
Amém!
Goiânia, 14 de fevereiro de 2018
Dom Washington Cruz, CP
Arcebispo de Goiânia