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Transparência na Igreja

Transparência na Igreja

Confira entrevista com diretor da Ecclesia

 

A transparência precisa ser cultivada na Igreja

 

A frase acima é do jornalista Paulo Rocha, diretor da Agência Ecclesia de Portugal. Ele esteve no Brasil, no mês de março, assessorando o IX Encontro de Jornalistas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), evento que aconteceu em Brasília e reuniu profissionais de todo o país, que atuam nas dioceses e regionais da Conferência dos Bispos. Entrevistado pelo Encontro Semanal, Paulo disse que o primeiro compromisso do cristão é com a verdade e, diante disso, é importante ser transparente para ser verdadeiro.

O assessor também explicou que, independentemente de qual quer situação, a Igreja Católica não deve tratar os assuntos em jogo de “empurra-empurra”. “Precisamos adotar atitude proativa de responder ou buscar meios para fazê-lo”, salientou. Ele orientou ainda como apresentar resultados de campanhas promovidas pelas comunidades, paróquias e por toda a Igreja.

 

Como você analisa a forma como a Igreja trata a questão da transparência hoje?

A partir de uma frase do padre Federico Lombardi, que foi diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé durante muitos anos. Em um congresso, ele disse certa vez que, em questão de moral e gestão administrativa, a Igreja tem que ser completamente transparente, não pode esconder nada e deve responder sempre. Mesmo assim, ainda podem suscitar dúvidas da parte do público.

Os responsáveis pela Igreja Católica não podem fazer o jogo do esconde-esconde, ou empurra-empurra. Não podemos esconder os assuntos e as matérias precisam falar sobre eles, mesmo que seja para dizer: “sobre isso não podemos falar agora por este ou aquele motivo”. Não pode haver o não diálogo. Se no momento não se pode responder, precisamos dizer que o assunto está sendo estudado, está em segredo de justiça, ou está sendo avaliado pelas partes competentes e quando tiver notícias a respeito será publicado. A transparência, que é uma atitude proativa, precisa ser cultivada na Igreja.Paulo Rocha, diretor da Agência Ecclesia

 

Por que é importante a Igreja ser transparente quanto a aplicação de recursos de campanhas diversas, e como fazer isso?

É importante porque o primeiro compromisso da Igreja é com a verdade, e todos os cristãos – seguidores de Cristo – devem comunicar a verdade. Daí, é preciso ser transparente para ser verdadeiro. Em segundo lugar, é fundamental manter a transparência porque isso só beneficia a própria instituição.

É algo que não compromete. Mas como fazê-lo? Penso que não seja interessante fazer de uma vez só. É fundamental nesse processo educar os responsáveis para as vantagens que a transparência traz. Depois, educar também o público, para que saiba que, se existe um quantitativo de uma campanha, ele tem o direito de saber de que forma esses recursos serão aplicados. Enfim, recursos e despesas precisam ser mostrados para que as pessoas valorizem as campanhas, as instituições e, em poder do conhecimento, os números em causa sejam valorizados. O trabalho é progressivo.

 

A Igreja precisa ter claro que a não transparência pode desencadear uma crise?

Sim. Essa abordagem faz parte da comunicação institucional. Trata-se de um assunto que é de interesse do público. As campanhas são um bom exemplo. Se eu faço uma campanha e quero contar com a participação de muitas pessoas, é meu dever informá-las sobre os resultados. Se não existe essa informação, pode-se gerar uma crise porque a dúvida fica no ar sobre a destinação dos recursos e, a partir da dúvida, pode surgir a crise que pode levar até a extinguir a campanha. Mostrar os resultados e a destinação do dinheiro só fortalece a campanha do próximo ano.

 

Como os assessores de comunicação podem ajudar nesse processo?

A transparência depende muito dos assessores de comunicação, pois eles atuam junto aos assessorados e junto aos jornalistas e ao público. É papel deles fazer essa ponte entre as partes, embora não seja fácil. Eles precisam fazer valer seus conhecimentos e profissionalismo para demonstrar ao assessorado que a melhor atitude a se tomar diante do problema da transparência é comunicar no tempo certo, com os jornalistas e com os órgãos de comunicação social, com a mídia e com os públicos. Se o assessor de comunicação sabe que há um problema, ele tem que tomar uma postura muito antes de virar uma crise e informar sobre ele antes de a imprensa descobrir e o transformar em uma crise maior. O objetivo dessa atitude é mostrar ao assessorado que há benefícios quando se faz dessa forma.

 

Como os assessores de comunicação podem propor à Igreja uma postura transparente?

Vemos no Brasil muitas suspeitas relacionadas ao dinheiro público e à falta de transparência. Nesse âmbito, o trabalho das assessorias de comunicação é muito importante nos dias de hoje, pois tudo passa pelos meios de comunicação. Os padres precisam entender isso. O trabalho que eu faço, ao longo de muitos anos na Agência Ecclesia, me mostrou que, cada vez que proponho algo novo, e mostro que essa coisa pode ser positiva, ganho confiança do meu assessorado Não é pedir licença a eles para fazer, mas dizer que vai fazer e depois mostrar os resultados positivos. Felizmente, eu nunca tive resultados negativos atuando dessa forma. Vejo que os bispos e os padres têm dificuldades em dar passos nesse sentido, em se aventurar, mas se eles avaliam um passo já dado, eles vão ver que esse passo já é positivo, e então, se assim for, o assessor pode ter a ousadia de propor novos pequenos passos e consequentemente aumentar a confiança do assessorado em seu trabalho.

 

Em algumas situações, há dificuldade de publicação de conteúdo sobre temas que envolvem o departamento jurídico. Como podemos lidar com situações nessa linha?

Parece que mais do que escancarar as portas e abrir todos os dossiês é necessário fazer isso por fazes. Precisamos perceber que existem matérias que necessitam ser publicadas, que é pior esconder, pois essa atitude não leva a lugar nenhum. É preciso informar sobre assuntos acerca do dinheiro e da moral, e tantos outros. Compreendo a argumentação da assessoria jurídica sobre o que pode e o que não pode falar. É evidente que determinados temas podem ser usados contra quem fala, mas é importante também haver o equilíbrio. Para resolver é necessário estudar junto com a assessoria jurídica o que se pode dizer aos meios de comunicação para, de alguma forma, acabar com os boatos sobre um assunto, sem comprometer mais a pessoa, pois o problema pode só aumentar e, se não há nenhum pronunciamento a respeito, pode fazer com que a coisa não pare de crescer e a opinião pública seja formada mesmo assim. Mesmo que não seja possível dizer números e nomes, é preciso afirmar que a Diocese ou a paróquia já está estudando o assunto e, se necessário, dar mais informações. Essa é a melhor resposta inicialmente.

 

Há exemplos de transparência na Igreja que poderíamos nos espelhar?

Vale a pena olhar a transparência que o Vaticano tem ensinado sobre os dossiês, sejam assuntos econômicos ou relacionados à moral e à ética. A Santa Sé tem nos ensinado como agir e o papa Francisco deu passos significativos nessa matéria da transparência. No âmbito econômico, ele entregou os dossiês para pessoas competentes nessa área, chamou profissionais financeiros e bancários para que tratassem a questão com as normas da sociedade civil. Assuntos como pedofilia também têm sido tratados sem problemas, assumindo a culpa quando há culpa, pedindo desculpas e afirmando que foi colocado todo o empenho para se resolverem os casos.

 

Fúlvio Costa

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